Heitor Werneck denuncia psicofobia e capacitismo contra pessoas no espectro
De Juliana Santos
Em meio ao crescimento do debate público sobre saúde mental e neurodiversidade, a frase “o autismo não tem cara” tem ganhado força por resumir um problema recorrente: o julgamento social baseado em estereótipos. Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda enfrentam desinformação e dúvidas sobre sua condição, especialmente quando não apresentam características consideradas “típicas”.
Para o ativista social Heitor Werneck, autista nível 2 e defensor dos direitos de pessoas neurodivergentes, a maior visibilidade do tema trouxe avanços, mas também abriu espaço para novas formas de preconceito. Segundo ele, ainda é comum a ideia de que o autismo precisa ter uma aparência específica. “Quando as pessoas dizem ‘você não parece autista’, estão reproduzindo um tipo de preconceito que invisibiliza milhares de pessoas”, afirma.
Outro ponto que preocupa é o aumento da desconfiança em relação aos diagnósticos. Em diferentes ambientes, pessoas no espectro relatam ser questionadas sobre a veracidade de sua condição, com acusações de que estariam “forjando laudos”. Para Werneck, esse tipo de atitude é grave e se enquadra como psicofobia, preconceito contra pessoas com transtornos mentais ou condições neurológicas.
Ao mesmo tempo, cresce o movimento inverso: pessoas sem formação tentando diagnosticar outras com base em comportamentos isolados. Comentários como “você é inteligente demais para ser autista” ou “deve ser autista porque é estranho” reforçam estigmas e evidenciam o capacitismo, que julga indivíduos a partir de padrões considerados “normais”.
Werneck destaca que o espectro autista é amplo e diverso, com diferentes níveis de autonomia, habilidades e formas de comunicação. Ele próprio afirma lidar com desafios sensoriais e sociais, mesmo tendo habilidades intelectuais elevadas, o que demonstra a complexidade do espectro.
Especialistas reforçam que o TEA se caracteriza por diferenças na comunicação social, no comportamento e no processamento de estímulos sensoriais, variando de pessoa para pessoa. Isso explica por que muitos autistas não apresentam sinais facilmente identificáveis. Nos últimos anos, também aumentaram os diagnósticos em adultos que passaram a vida sem compreender suas dificuldades.
Para o ativista, a combinação entre desinformação, psicofobia e capacitismo contribui para um ambiente social hostil, com impactos como ansiedade, isolamento e dificuldades no trabalho ou nos estudos. Ele alerta que não cabe às pessoas diagnosticar ou deslegitimar a condição de alguém com base em impressões pessoais.
Como caminho para enfrentar o problema, Werneck defende a ampliação do acesso à informação qualificada, além da escuta das próprias pessoas autistas. “O primeiro passo é entender que o autismo não tem cara. O segundo é respeitar a palavra e o diagnóstico das pessoas. A inclusão começa quando deixamos de julgar e começamos a ouvir”, conclui.
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Redação 27 de Abril de 2026
